Delfina Nogueira: trabalho, responsabilidade e humildade

A fundadora da Escola Primária Palmo e Meio partilha a sua experiência de liderança e empreendedorismo na educação.
EMPREENDEDORA DO MÊS Neste mês dedicado à mulher, nada melhor do que falarmos de negócios com mulheres que entendem de negócios. Desta feita, a nossa equipe teve uma conversa com uma empreendedora e fundadora da Escola Primária Palmo e Meio, onde nos conta sobre a força da mulher empreendedora. Acompanhe a entrevista abaixo e descubra o que ela tem a partilhar. BC [Beira Connect]: Qual é o seu nome e o que faz? R [Resposta]: Chamo-me Delfina Nogueira, Beirense, filha duma “Sofalence” e dum Zambeziano, formada em ensino de História pela Universidade Pedagógica, actualmente exerço as funções de directora da Escola Primária Palmo e Meio. BC: A quanto tempo actua no ramo da educação? R: Comecei com a educação pré-escolar a 5 anos, e neste ano (2018) introduzi o ensino primário (1ª – 5ª classe). BC: O que a motivou a abraçar essa área? R: Primeiro porque sou professora de profissão e gosto de crianças, e segundo porque ao longo da minha carreira profissional fui experimentando varias áreas como a administração, a logística, as finanças e também trabalhei para um centro de formação profissional onde geria um centro de formação que tinha 12 departamentos de ensino (construção civil, mecânica, serrilharia, corte e costura, educação de infância, culinária etc..). Então, depois disso senti-me com capacidades de abrir a minha própria empresa fazendo aquilo que realmente gosto, educar e lidar com crianças.
BC: Sendo formada em história, sente que esta formação ajuda-lhe no trabalho que faz? R: Sim, porque a história abre a nossa mente. Com a história temos a capacidade de conhecer o mundo, não estando presente em todos locais, acontecimentos ou tempo, mas sim através dos livros; de uma certa maneira, a formação em História ajudou-me a encarar a minha iniciativa com optimismo. BC: Conte-nos como é que tem sido o seu dia-a-dia como empreendedora? R: Bom, o meu dia-a-dia tem sido normal como qualquer empreendedora. Tenho dificuldades, mas o meu lema é persistir, insistir e nunca desistir. BC: Quais são as principais dificuldades que tem enfrentado nesse trabalho e também na vida social? R: As dificuldades são várias mas eu adoptei uma gestão ou liderança participativa, ou seja, não sou chefe mas sim líder. Partilho os problemas com os meus colaboradores, daí que fica mais leve gerir a empresa pois todos participam naquilo que são os problemas e naquilo que são as alegrias. Então, tenho problemas como qualquer mulher tem na gestão de uma empresa, mas eu sinto que os meus problemas por serem compartilhados pela minha equipe acabam tornando-se suaves. BC: Sente que os seus colaboradores gostam de si? Se sim, qual é o segredo? R: Sinto que sim, gostam, sou a “mom” deles. O segredo? Na verdade o segredo para ser gestora é sem dúvida muito trabalho, tem de se trabalhar muito, tem de se ter muita responsabilidade, muita honestidade e acima de tudo muita simplicidade e humildade.
BC: Sendo empreendedora, como tem sido a sua convivência na sociedade e na família? R: Não mudou nada. Eu sou aquela simples menina que se transformou hoje em senhora, igualmente simples; continuo a mesma, nada mudou; alias o que mudou são apenas as responsabilidades, e a minha família encara esse meu lado com muito carinho, pois alguns elementos da minha família também empreendem, os meus irmãos por exemplo, embora em áreas diferentes. Então é um bocadinho facilitado porque quando estamos juntos a conversa é sobre como gerir, como inovar, etc. partilhamos as tristezas e as alegrias dos nossos negócios. BC: É dona da Escola Primária Palmo e Meio e lida com crianças todos os dias! Conte-nos essa experiência. R: Não é fácil, é um trabalho de muita responsabilidade. Mas porque conto com o apoio de profissionais de qualidade não tem sido muito complicado, também porque gosto de crianças o trabalho torna-se facilitado. BC: O que torna a Escola Primária Palmo e Meio diferente das outras? R: Bom, não posso dizer que sou melhor que as outras donas de escolas, mas eu pauto por uma prestação de serviços de qualidade e diferenciados na área pedagógica, incutindo valores humanos universais (respeito, honestidade, tolerância, responsabilidade etc.), motivada também pelo facto de a sociedade dar primazia aos aspectos técnicos em detrimento da ética (valores). A nossa sociedade tem grandes Engenheiros, muitos Doutores e Mestres com dificuldades de “saber ser e estar”; esta situação entristece-me, penso que a diferença está ai. A Escola pretende também formar a criança para a vida, torcendo o pepino o quanto cedo. BC: Está satisfeita com o estado actual do envolvimento da mulher no mundo dos negócios? Sim/Não, porquê? R: Sim. Olhando para a cidade da Beira nós temos muitas mulheres a empreender e a nível nacional também, portanto estou satisfeita. Além do mais, não comungo com a ideia de que a mulher não tem capacidade, porque não há diferença entre homens e mulheres na gestão de uma empresa, temos todos a mesma capacidade, alias, está comprovado que quanto mais mulheres tivermos na gestão de uma determinada empresa, mais eficiente, mais eficaz é tal empresa. Porque a mulher tem uma visão geral aliada a sensibilidade, ela é capaz de pensar como uma atitude dela dentro da empresa pode afetar a parte social da própria empresa e consequentemente o ambiente geral. Ela está naturalmente treinada para isto. Ela também tem uma capacidade muito grande de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, ser multifacetada. Estas características são um diferencial para o sucesso feminino. Então, estamos num bom caminho! BC: Qual é a chave do sucesso para si? R: Trabalho, muito trabalho, aliado à responsabilidade e humildade.
BC: Suas metas daqui a 5 anos? R: Daqui a 5 anos a minha meta é de que a escola seja reconhecida a nível da província como uma escola que pauta por serviços de qualidade e que seja capaz de resgatar alguns, (pelo menos alguns) valores perdidos, obviamente às crianças que passarem pelo Palmo e Meio, então quero deixar esse legado, de ter sido a escola que resgatou valores perdidos e ter contribuído para o desenvolvimento cognitivo das nossas crianças. BC: Conselhos para mulheres que pretendem entrar no mundo dos negócios. R: Nunca desistam dos seus sonhos. Não é necessário ter um capital volumoso para começar um negócio, pode começar com o pouco que tiver, mas nunca deve perder o foco, insista, que um dia chega lá. Porque é possível sim, é só mais uma “tarefa” que você deve colocar na sua agenda, sabemos que você dá conta. Mulheres sempre arranjam tempo e dão jeito para tudo, não é? Tem muito espaço em Moçambique para empreender e a hora é agora. Com a força e determinação da mulher, ninguém nos segura [Risos]. Para finalizar, aproveito desejar a toda mulher moçambicana festas felizes. Assim foi a nossa conversa com a empreendedora do mês Delfina Nogueira, desejamos-lhe sucessos nessa jornada e que torne a os seus sonhos em realidade e legado. Porque Ser empreendedora não é ser gigante. Ser empreendedora é realizar o seu sonho – não importa o tamanho dele. Por:EquipeBeiraConnect
Publicado originalmente na edição Negócios no Chiveve – Março 2018. Consultar a revista completa em PDF.
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